não há silêncio
nesta palavra
que o nomeia
e a linguagem
me atormenta:
cova de um vazio
enchido de pensamento.

deliram-me as palavras
e os seus segredos:
tudo soa
exceto as letras
quando formam
a ideia do
silêncio.

penso a partir delas
e não de um mundo
que reinvento
quando digo:
a linguagem cria o mundo
e eu escrevo,
expatriada.

noturno

o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.

o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.

I.
anos bebendo
a tua imagem
a curvatura
de um rosto
por trás
do lápis

é noite e eu
te chamo
(sussurra
a tua
ausência; um
nome
diante do
inverno)

levanta-te
na minha leitura
e vem abjurar
a morte

II.
o último
homem
morria
no final
do corre-
-dor

quem há de falar
debaixo teu
nome?

- renasce,
e o malogro
da linguagem

riscos negros
sob o papel
branco

palavra. ou
nem isso.

III.
a amizade
é um fio de
navalha
sobre o tempo

alcança
a minha
boca
e venta
esta distância
a minha mudez

escrever, antes
tocar. não sou eu
a mão que escreve.
é outra.

phármakon

verde, e branco,
vestígios de um
naufrágio na
espuma à
beira – da
boca

só se pode ir
na direção
do impossível
– lá, onde a
navalha é súbita
falha aberta
(como o medo)
– como a escrita

daqui, ainda,
o corpo todo
a fazer-
me outra

dentro-terrível
e os neurônios
não se contam

ouvidos rangendo
minha impaciência
e as mãos tomadas
da consternação
(doce)
que antecede
a tua chegada

a rua
e a tua ausência
caminhando
a noite

em mim

o meu corpo
sobretudo

arfa
pulsa
e tudo
soa
a tua espera

tintinnabuli

devia ser de águas,
a Alina, nesta praia.
ele na frente dela,
a olhá-la
a imensidão.

ela incessante.

ele grave.
a adentrar.
homem no
líquido dela.
o percurso dele,
no contínuo.

minhas mãos
de pedra
tocando-os.
aos dois.

minhas mãos
violentando
o encontro.

minhas mãos
rasgando
o silêncio.

minha mãos
não alcançam
a intimidade,
a Alina dele.

só os dois,
e essa tensão:
dança circular
do silêncio.

ou o silêncio
com outro nome,
e os ouvidos
habitados
nessa exaustão.

que é também
mergulho,
é sempre o eco
das águas de Alina,
e as mãos mortais.

Girassóis

para os 27 girassóis de Luiz
e os 7 da nossa amizade

como se camadas
seculares
dos anos
me atingissem
no fundo de todos
os dias:
esta conversa.

por trás dos
ruídos
dos dias:
eu e você
implicados
numa mesma
linguagem. Uma
mesma, e Outra,
e o it pulsando.

seria de amarelo
qualquer lembrança tua,
e da voz sussurrando
distâncias, suprimindo.

atravessa-me esta ternura,
te saber assim por dentro,
a coisa escura,
o tamanho dos passos,
a caixa da loucura,
os gritos de continuamente
amanhecer. Girassóis
ardendo, e todas as letras
que lemos
continuamente
soando
por detrás dos livros,
da memória,
do insistente
marulho do mundo.

Te chamaria Fernando,
Félix, Maurice, Michel,
Jacques, Diego, Auguste,
e você atenderia
as cartas, os pedidos,
a complexão. E eu
te saberia, inominado,
no fundo desse dizer.

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