a linguagem, este abismo

recebi
o meu quinhão
da herança do meu avô
num saco preto
de lixo
amarrado com crepom.
como um peso
morto
um punhado de livros
com o meu nome
marcado
na contracapa
um par de presentes
que eu ofertei
quando celebrava lhe
a vida
e mais nenhuma
insignificância
que me dissesse:
este era o meu avô.
*
quando
minha cachorra morreu
recebi de meu avô
a notícia: ‘Filha,
a cachorrinha morreu. Vai,
segue tua vida’.
recusei permanecer
naquele abraço
e corri para minha
cachorrinha morta
sabendo que não há
lugar no corpo
para a consolação.
*
meu avô deitava ao meu lado
na cama dos meus cinco anos
e sussurrava ao meu ouvido
preces para espantar a noite.
medo algum resistiu
ao guardião
da minha infância.

eu era a sua princesa da floresta.
ele era meu herói.
*
meu avô morreu como
a minha cachorra:
esvaindo, aos pouquinhos,
para que a gente pudesse
ver e, vendo, acreditar. acreditar
que a vida é um soprinho
que esgota, lentamente. que
a morte
é violenta
em toda a sua
delicadeza.
*
meu avô morreu.
tudo o que eu queria
era um tempo íntimo
com as coisas dele.
os segredos dele. o modo
particular que ele devia ter
de organizar as meias,
os lenços, os papeis
de presente. queria chorar
ao lado da cama dele.
queria ficar em silêncio
no meio do mundo dele
e aprender o que quer que fosse
com as suas contradições.

meu avô morreu.
e a única vez
que eu entrei
em sua casa
foi para escolher a roupa
que ele ia usar
durante o velório.
escolhi um terno
preto
uma camisa uma gravata estampada
e um broche de lapela.
coloquei também sapatos
para honrar o professor
que ele havia se tornado
a despeito do menino
que foi expulso da escola
por ter os pés nus.
a caminho do quarto,
passei pela estante
de livros do meu avô
morto
e apanhei uma caneta
pousada na prateleira
que agora uso para
escrever
essas palavras
e todas as outras.
todas inúteis.

meu avô morreu.
tudo o que eu queria
era
que
não.

nono

minha mãe

Queria minha mãe
ser feita da pedra
das fortalezas
pois assim dispõe
o seu sorriso:
grande, perene,
alheio ao quebrar das ondas.
Queria minha mãe
ser a pedra mesma
que guarda a cidade inteira
dentro de si
e permanece, noite e dia,
em colo e vigília.

Mas eu te sei as entranhas,
mãe,
e no silêncio de tudo
sempre hei de olhar-te
a solidão
e fazer companhia de ventre.
Eu sei as entranhas
dos medos e amo
a nossa fragilidade
a nossa inteireza
e tudo aquilo que não tem nome.

Amo como permaneces
– estrada de pó, caminho
e chegada –
ainda que sejamos mais ruínas
e por isso mais humanas.

mania

correm três cadeias
de pensamentos:
acelerados
imiscuídos,

a boca muda
por excesso
de ideia,

o ar pesando
a incapacidade
da palavra

as veias poucas
para tanta
circulação.

o corpo
a beira
do próprio corpo, e
seu afogamento

– as mãos, meu deus,
o que fazer para deter as mãos?

construo um poema
com restos de voo.

que o poema fosse
o pássaro caído
e minha lógica
de serpente
abocanhasse
o pobre coitado.

– mas as mãos seguem destilando
o avesso da escrita

phármakon II

do naufrágio ao rebojo
e o mesmo barco, frágil,
fragilizado, remando por força de fúria
e cansaço. Assim vão sendo os dias,
doutor, sem fé pequena para tanta
água turva – com o perdão da náusea,
que não tem sido estado de exceção.

Mas chega a me correr as veias, doutor,
esse torvelim, dando trovoada na boca,
como fosse um céu de verdade, e então
eu não sou mais o barco; eu sou o mundo
onde tudo me acontece, doutor.

E ai o senhor diz pra naufragar
o meu próprio acontecimento
e eu só quero que o senhor entenda
que é muito difícil confiar nessa tua balança
– mas que continuo aqui,
por entre as águas.

depois desse tempo

o que é difícil
é saber
o que
permanecerá
depois
desse tempo

se é de carne
a memória
ou de ilusão

se me nomeiam
as areias
à beira do mar
– que há de apagar até
o que é fundo
com sua obstinação

difícil prever
o rumo dos pássaros
(voo negro sobre
um azul)

se pra sempre
me restará
esse bater de asas,
que me faz
absurda,
neste mesmo
inamovível
ponto

difícil saber o que
se é
sob um nome
altero

duvidar dos próprios
olhos, odiá-los
a mirada

desafiá-los
a pisar o pó
e continuar
dizendo: há alguma
coisa
que se chama
eu
caminhando sobre
as ruínas
de um mundo

o que é
difícil é saber se
isto
é só um tempo

ou a própria vida

umbrais

o mundo
era a rua
e mais eu

e a rua,
um deserto
de sombras
ocultadas –
como um
verso
sem encanto
e quase sem
nome

– quase;
enquanto
eu exista
para dizer o
inominado,
estarão lá,
a sombra
a rua
e mais eu

o medo era
uma criança
que soube cedo
o nome da solidão

o mundo,
abismo de órfãos
desesperados

atravessando-se
uns aos
outros
com seus
abandonos

o medo era
um corpo
estranho
a sua história

só ossos
e pulsação,
onde antes:
futuro

onde a rua
lateja de
passado

cada rua
é sempre
aquela,
e menos
eu

o silêncio da linguagem

não há silêncio
nesta palavra
que o nomeia
e a linguagem
me atormenta:
cova de um vazio
enchido de pensamento.

deliram-me as palavras
e os seus segredos:
tudo soa
exceto as letras
quando formam
a ideia do
silêncio.

penso a partir delas
e não de um mundo
que reinvento
quando digo:
a linguagem cria o mundo
e eu escrevo,
expatriada.

noturno

o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.

o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.

três poemas para Blanchot

I.
anos bebendo
a tua imagem
a curvatura
de um rosto
por trás
do lápis

é noite e eu
te chamo
(sussurra
a tua
ausência; um
nome
diante do
inverno)

levanta-te
na minha leitura
e vem abjurar
a morte

II.
o último
homem
morria
no final
do corre-
-dor

quem há de falar
debaixo teu
nome?

– renasce,
e o malogro
da linguagem

riscos negros
sob o papel
branco

palavra. ou
nem isso.

III.
a amizade
é um fio de
navalha
sobre o tempo

alcança
a minha
boca
e venta
esta distância
a minha mudez

escrever, antes
tocar. não sou eu
a mão que escreve.
é outra.

phármakon

verde, e branco,
vestígios de um
naufrágio na
espuma à
beira – da
boca

só se pode ir
na direção
do impossível
– lá, onde a
navalha é súbita
falha aberta
(como o medo)
– como a escrita

daqui, ainda,
o corpo todo
a fazer-
me outra

dentro-terrível
e os neurônios
não se contam